Entrevista com os Atletas Participantes no Campeonato do Mundo por Grupos de Idades 2021

Entre os dias 22 e 28 de novembro, quatro ginastas do CCRAM, em conjunto com o treinador Carlos Nobre, voaram até Baku, no Azerbaijão, para participarem na 28ª edição do Campeonato do Mundo por Idades. 

Estivemos à conversa com os nossos atletas: Matilde Nobre (15 anos), Alice Nobre (18 anos), Sofia Lourinho (17 anos) e Pedro Marques (21 anos); e com o treinador Carlos Nobre, que nos desvendaram um pouco mais sobre aquilo que foi a preparação e a participação neste Campeonato.

 

Como é que reagiram quando souberam que tinham sido apurados?   

Matilde: Nós ficámos todos bastante felizes. Pessoalmente, fiquei bastante contente uma vez que há dois anos tinha tentado o apuramento para o campeonato do mundo no Japão e não tinha conseguido e fiquei com um foco: conseguir ir a este, em Baku. Consegui e fiquei bastante contente. 

 

Como é que se prepararam para uma prova deste calibre? Mudaram muita coisa nos vossos treinos normais? 

Alice: O nosso tipo de treino antes de irmos para uma prova deste género é muito dedicado à parte técnica e a tentar, durante o treino, fazer várias séries completas. Fingimos que estamos na prova e tentamos direcionar o treino para isso em termos técnicos. Quando chegámos ao local da competição, nós deparámo-nos com várias coisas que são diferentes daquilo a que estamos habituados. Por exemplo, os trampolins são completamente diferentes, o local onde nós estamos é completamente diferente, nós aqui treinamos sob condições em que o trampolim está enterrado no chão. Quando vamos para uma prova eles estão fora do chão, são mais altos. Temos de nos habituar a isto também. Também temos de nos habituar a treinar com pessoa que não conhecemos. Ou seja, nós estamos num ginásio onde estão pessoas de outros países e temos de conseguir estar concentrados ao ponto de estar a treinar sem estar focado no que as outras pessoas estão a pensar de mim. Portanto, temos muito trabalho em termos físicos e técnicos, mas também temos muito trabalho em termos psicológicos para continuarmos focados e conseguirmos alcançar os nossos objetivos. 

 

A Alice falou-nos um bocadinho do facto de terem de lidar com muitas pessoas diferentes durante esta prova. Consideram que esta partilha com tanta gente diferente vos ajuda a evoluir como atletas? 

Sofia: Sim. Esta foi a minha primeira prova internacional e competir com pessoas de outras nacionalidades faz-nos ver que nós afinal não estamos assim tão “lá em cima” como estamos em Portugal. As séries que os outros atletas fazem são completamente diferentes e têm muita mais dificuldade. Isto faz com que queiramos puxar mais de nós e sejamos um bocadinho mais exigentes connosco próprios para tentarmos também chegar onde os outro chegam.

 

Vocês estiveram alguns dias em Baku. Como é o dia a dia de um atleta numa destas competições?

Pedro: Bem, o dia a dia numa competição destas é acordar bastante cedo. Nos dias em que tínhamos prova normalmente íamos todos dentro do mesmo autocarro, porém as pessoas que tinham prova iam sempre um bocadinho mais cedo porque normalmente eram sempre do primeiro grupo. Então, o primeiro grupo começava às 9h30/10h e eles já tinham de lá estar para fazer o aquecimento na zona do aquecimento e depois esperavam para a competição começar efetivamente. Fora isso, toda a comitiva ia sempre no mesmo autocarro, todos juntos a fazer “palhaçada” e portanto era bastante giro e muito gratificante, acima de tudo.

 

Qual é que consideram que terá sido a maior dificuldade durante os treinos e mesmo durante a prova? 

Matilde: Durante os treinos… talvez começar a fazer séries novas. Nós começamos a ter um bocadinho de pressão porque às vezes as séries não saem tão bem, o tempo começa a ficar mais curto e a competição está a aproximar-se. Nós começamos a sentir um bocadinho de pressão, mas é normal. E lá é mais habituarmo-nos a tudo: aos horários, ao ambiente…

 

Qual foi o momento que mais vos marcou nesta competição? 

Alice: Eu não diria que tive assim exatamente o momento mais marcante, mas eu gostei especialmente do momento em que eu fui para cima do trampolim durante a prova porque acho que pela primeira vez eu estava super descontraída em ambiente de prova. Normalmente eu fico sempre muito nervosa e desta vez eu consegui controlar-me e consegui aproveitar ao máximo o facto de estar ali sem estar nervosa. E também foi curioso porque eu estava numa prova em que eu não conhecia nem as pessoas que estavam a competir contra mim, nem os juízes, então às vezes nestas situações nós podemos ficar um bocado nervosos e não conseguir aproveitar. Mas eu sinto que desta vez consegui aproveitar. Outra coisa que também foi marcante foi o facto de que desta vez a comitiva portuguesa ficou toda no mesmo hotel e em termos de convívio é muito mais divertido. Eu acho que isso foi bastante importante e tornou esta experiência muito mais marcante e divertida.

 

Quais são as vossas perspectivas para o futuro agora?
Sofia: Depois desta prova, para mim, o próximo objetivo é tentar saltos e séries novas para conseguir pontuar para sénior elite que é duplo mini trampolim, é onde eu gosto mais de saltar. Para todos, acho que o nosso próximo objetivo é irmos ao campeonato da Europa, que se realizará em Junho, ter pontuação para isso também. Depois, o próximo CMGI que será em novembro/dezembro do próximo ano. E pronto, é continuar a trabalhar, manter o foco para tentar atingir estes objetivos 

 

Sabendo o que sabem hoje, qual seria o conselho que gostariam de dar a vocês mesmos antes da competição? 

Pedro – Bom, é uma experiência como nenhuma antes vivida. Para além de ser noutro país, rodeado de outras pessoas – pessoas conhecidas e desconhecidas. Ao fim ao cabo vais entrar dentro da zona de competição e vais levar uma chapada do quão grande aquilo é. Se tu achas que aquilo é grande, ainda vai ser maior. Então aquilo que eu digo é: mantém-te na tua zona, na tua “cena”, porque tudo vai resultar, tudo vai correr bem 

 

Professor Carlos Nobre, qual é o balanço geral que dá do desempenho dos nossos atletas. 

Prof. Carlos Nobre – Bem, antes de falar do balanço acho que é importante nós percebermos a nossa realidade. Eles tiveram a oportunidade de conhecer ao vivo ginastas de outros países, que têm realidades completamente diferentes. Nós sabemos que os trampolins em grande parte dos países têm uma realidade completamente diferente em termos de trabalho, em termos de horas de trabalho, investimentos… e quando eles chegam à competição começam a olhar para os colegas e percebem um bocadinho aquilo que a Sofia estava a dizer: que eles fazem coisas mais difíceis. Mas efetivamente eles têm outras condições de trabalho. Em Portugal nós conseguimos treinar ao final do dia e depois de um dia de trabalho, escola, enfim é muito cansativo, e às vezes a energia já não é aquela energia de que precisávamos para um treino exigente. As outras comitivas têm a oportunidade de treinar duas vezes por dia e algumas até três vezes por dia. Eles treinam num ano aquilo que nós conseguimos treinar em 10. De qualquer maneira, esta competição é boa exatamente para eles conseguirem fazer estas comparações e perceberem onde é que podem chegar. Por exemplo, se calhar acham que em Portugal já fazem até bastantes coisas e muito arriscadas e depois chegam lá e acham que afinal não fazemos assim tanto. Isso é bom porque acaba por lhes dar outra dimensão daquilo que podem alcançar, isso é logo visível nos treinos a seguir ao campeonato do mundo e ajuda imenso o trabalho de um treinador. Em termos de balanço, eu penso que para o nosso clube foi espetacular porque foi a primeira vez que nós conseguimos ter quatro elementos numa competição deste género. Já tinham tido a participação da Bruna Vitorino em sincronizado, mas assim uma participação com quatro ginastas, eu acho que foi muito marcante. Outra questão muito importante é que a preparação para uma competição destas é muito especial, não só pelo facto de eles irem ganhando alguma ansiedade ao longo da preparação porque se estão a preparar para um campeonato do mundo e é a pressão de toda a gente sob o trabalho deles. Não só a pressão de eles para eles, pois querem fazer bem para representar bem e para evoluírem, mas toda a gente que envolve vai colocando, mesmo sem querer, alguma pressão que nas grandes competições e nas primeiras vezes que eles participam, acaba por gerar falhas, que são normais, porque ainda não conseguem lidar bem com este tipo de ansiedade. O que se verificou, e eu até fiquei muito satisfeito pois não é muito normal, foi que os quatro conseguiram uma participação muito equilibrada, ou seja, não houve falhas. A Sofia até teve uma pequena lesão na semana anterior e esteve impossibilitada de treinar e ela conseguiu, mesmo assim, fazer a sua participação sem falhas. A Matilde e a Alice já tinham alguma experiência em competições deste género, portanto as coisas correram relativamente bem. O Pedro também nunca tinha tido a oportunidade de participar numa competição deste género, que é completamente diferente, tal como eles disseram, mas também esteve muito bem. Penso que o futuro é muito animador mas agora isto é como tudo: basta eles quererem. Quando eles não querem, não há hipótese, mas quando eles querem tudo se consegue. Isto às vezes são pequenas bolas de oxigénio que estas competições dão para se poder continuar a subir patamares, para subir na escada e chegar a um patamar mais exigente e mais interessante.

 

Mais uma vez agradecemos aos nossos atletas e ao nosso treinador por representarem sempre tão bem o nosso clube. Esperamos que continuem a levar as nossas cores por todo o mundo!